Poodle
Eu e a Alana fomos morar juntos em algum momento do primeiro semestre de 2017. Acho que foi em abril. Posso estar enganado.
Tínhamos poucos meses de namoro. Eu tava completamente apaixonado, e teria ido morar em Balneário Camboriú se ela tivesse proposto.
Gosto de pensar que ela estava apaixonada o suficiente pra vir morar comigo no hoje saudoso Capotão, um apê de mais ou menos 60 metros quadrados com uns 3 mil discos, alguns bonecos do he-man e um pôster do Borat.
Onde foi parar o pôster do Borat?
Entre o fim de 2016 e os primeiros meses de 2017 a gente passou bastante tempo na casa dela, que ficava num dos únicos predinhos da rua Pinheiros que ainda não virou um baccio di latte. Um prédio dos anos 50, de dois andares, janelas imensas, pátio interno com umas árvores enormes e bancos de granilite, e qualquer cidade com o mínimo de memória tentaria brigar pela manutenção de espaços como esse.
Em São Paulo não tem isso.
Esses dias soubemos que o prédio vai ser demolido pra dar lugar a um novo empreendimento. Esses prédios novos que a gente acha que é escritório, mas é apartamento.
Eu já nem me abalo mais.
Nesse apê conheci os dois doguinhos dela na época: o Bowie, que tá com a gente até hoje, e o Poodle.
Antes de imaginar que eles passariam a fazer parte da minha vida preciso confessar que um dia dei meia dúzia de biscoito de polvilho pro Bowie, que na época tinha quatro anos e era bem serelepe.
Uns dias depois a Alana falou
- Faz três dias que o Bowie não faz cocô
Não me entreguei naquele primeiro momento.
Estávamos a caminho do Pet do Cebola na Mateus Grou quando ele fez um quilo e meio de cocô, olhou pra gente balançando o rabo e sorrindo, e me encheu de segurança pra confessar
- Dei polvilho pra ele outro dia, foi mal
O bowie hoje é um velhinho com catarata, que dorme bastante, tem dores em todas as articulações e curte lamber a cara do Cassiano. Um vira-latinha preto, daqueles que viram borrão em fotografia. Desses dogs que parecem saber o que você tá pensando.
Talvez eles saibam mesmo.
Mas eu vim aqui hoje pra falar do outro cachorrinho que morava lá, um poodle que já tinha uns vinte anos na época. O famoso poodle highlander, acho que todo mundo conhece algum. Um vovozinho cego, certamente guiado pelo instinto de algum antepassado, que já tinha um nível cognitivo bastante comprometido, UM dente na boca - algo que o tornava o King Stitt dos cachorros -, aquele pêlo amarelado que já viu tempos melhores e que, pra completar, não tinha uma das patas traseiras. A direita, pra ilustrar melhor esse relato.
O poodle, que também era conhecido como Trapo (ou Trapoodle, seu nome ‘original’), viveu seus últimos anos com pompa e circunstância, como um rei. Ele foi resgatado pela Alana em Paraisópolis, numa ribanceira. Nunca tentei entender direito o que ela tava fazendo numa ribanceira em Paraisópolis, mas lá ela achou o poodle, pique mendiguinho, machucado, peludo e craquento.
Foi o Marcelo, lá no pet do Cebola, que avisou:
- vai ter que amputar a patinha
Tava no lucro, o poodle.
A Alana diz que ele ficou quase bonito depois da tosa. Fofo seria o termo mais adequado.
Não sei, não tava lá. Mas era bem feinho, o poodle. Coitado.
Não tenho certeza se vivemos um ano juntos, todos, lá no Capotão. Talvez tenha sido menos.
E toda manhã eu saia pra passear com os dois, rolezinho curto porque o poodle era café-com-leite.
Outro detalhe: quando ele fazia xixi, levantava o cotoquinho. Ancestralidade poética.
E foi numa sexta-feira fria que o poodle convulsionou na calçada. Na frente do prédio, logo que saímos.
Esse dia em especial ele tava mais pancada que de costume. Era um cachorrinho pequeno, frágil, devia ter uns 4 quilos, mas costumava ficar animado pros passeios.
Esse dia não. Chegou a ficar durinho quando puxei a coleira ainda no apê, mas não deu sinais suficientes pra me preparar praquilo.
A convulsão foi horrivel. Quem já viu, tá ligado. Quando me liguei ele já tava de lado, quicando na calçada, com a lingua de fora. Deve ter durado uns poucos segundos, mas parecia interminável. Tentei me recompor. Liguei pra Alana.
- Desce, que o poodle convulsionou
- Convulsionou?!
- É, desce logo. Tô aqui na frente.
Sou um cara dramático de maneira geral, mas ali não tinha muito como pentear o ocorrido.
Talvez o mais louco tenha sido o fato de que, em poucos segundos, o bichinho tava de pé, ciscando pra lá e pra cá, fato que descobri depois ser comum em casos de AVCs caninos. O que evidentemente apenas prolongou o desfecho - e nosso sofrimento.
Quando a Alana chegou ele já tava fazendo os pequenos movimentos circulares típicos, mas vê-lo ali, vivo e trotando, foi um alívio.
Subimos mudos no elevador. A Alana com o poodle no colo, eu com duas coleiras na mão, e o Bowie perguntando “e aí, fudeu?”
Demoramos mais de 24 horas pra conseguir um horário no pet do Cebola. O Marcelo, veterinário de confiança da Alana, sugeriu que a gente observasse ele até lá.
Acho louco esse lance de falar pra observar. Como se observar ajudasse no diagnóstico. Como se criasse um relatório completo. Ou, que bom seria, como se ajudasse a estancar o sofrimento. O deles, e o nosso.
“Então, Marcelo. Observei o poodle a noite inteira, e sugiro que você comece pelo baço. Tem alguma coisa aí no baço."
Não tenho uma memória clara de como passamos aquela noite. O poodle dormia num colchãozinho azul do lado da Alana, mas talvez tenha dormido com a gente na cama.
No outro dia ele tava bem baleado. A consulta era no início da tarde, e por alguma razão decidimos ir a pé, e levar o Bowie. Posso estar errado, mas chuto 10 quarteirões entre a Capote Valente e a Mateus Grou, e pela Cardeal a gente dobra a conta pela insalubridade.
Ou talvez a gente não tivesse carro em 2017.
Era esse o cenário quando chegamos pra consulta; Bowie com a língua de fora, eu e a Alana revezando o colo pro poodle, que tava praticamente desmaiado. De tempos em tempos ele abria os olhinhos, emitia algum grunhido, e voltava ao modo desfalecido.
Outro fato pitoresco: acho que nunca ouvi o poodle latir. Será que ele não latia? Será que latiu muito, gastou o latido lá em Paraisópolis e desistiu de latir?
Será que entendeu que não adianta latir?
Evoluiu, sei lá. Ele me parecia um doguinho evoluído, sempre num silêncio que explicitava nossa barulheira, nossa confusão.
Nossa absoluta falta de objetividade.
Quando a Alana perguntou se o Marcelo achava que era o caso de eutanásia, a resposta foi categórica:
- Não tem muito o que fazer agora. Vamos esperar uns 3 ou 4 dias, ver se apresenta alguma melhora. Se não, voltamos a conversar.
“Apresenta alguma melhora”. O que? Fazer o moonwalk? Botar um disco meu pra tocar? Dizer que queria ter nascido um dálmata? Putaqueopariu. Por mais que eu sinpatize com o Marcelo, a frieza necessária com que os veterinários lidam com esses momentos é de fuder.
A volta pra casa foi silenciosa. Ou pelo menos parcialmente silenciosa. Saímos de lá, a Alana com o Bowie na coleira e eu segurando o poodle como se fosse um bebê, enroladinho num pano leve que ela improvisou.
Sabíamos que a eutanásia era inevitável. E, de fato, ela aconteceu no dia seguinte. Não tava dando pra aguentar o sofrimento do bichinho.
Caminhamos poucos metros com a porra da eutanásia corroendo cada milímetro dos respectivos pensamentos, e passamos em frente a uma dessas dezenas de brechós hipsters que tomaram Pinheiros de assalto.
Olhei pra porta do estabelecimento e reconheci a figura que, ao me ver, também me reconheceu com um sorriso.
Vou chamá-lo de MIOLO.
O Miolo vinha saindo de dentro do tal brechó e veio em nossa direção. Demos um semi-abraço desajeitado em função do pacote no meu colo, algo que o Vince Vaughn chamou de ASS-OUT HUG no clássico Penetras Bons de Bico, e ele finalmente fez contato visual com o doguinho moribundo.
Pausa. Preciso dizer que, embora conheça o Miolo de outros carnavais, não chego a considerá-lo um amigo. O Miolo é aquilo que, em São Paulo, a gente classifica como chegado. Conhecido de show de rap, de rolê. Amigo de amigo. Desde muito antes de não existir amor em SP.
Mas daí o Miolo sorriu, saudou a Alana, que já estava uns bons passos na minha frente, fez um afago na cabeça do poodle e falou
- E esse cachorrinho?
- putz, esse cachorrinho acho que tá nas últimas, trouxemo no veterinário pra ver se dá pra fazer alguma coisa
O Miolo olhou pro poodle com olhos de ternura, estendeu a mão, como que dando uma bênção, e falou
- se for a hora dele, que vá em paz, né?
Pronto. O Miolo deu a extrema unção do Poodle.
Nos despedimos do jeito que deu, meio sem jeito, viramos na cardeal e começamos a longa subida.
Ainda meio atordoada, a Alana virou pra mim e falou
- nossa, esse cara é a cara do Miolo
*****



Nossa, eu reli o final mais de uma vez até entender que Miolo era referência ao personagem da Turma da Mônica. Fui até atrás pra relembrar. O google corrigiu que eu queria dizer "miojo turma da monica". Lutei com o google até perceber q eu tava pensando no: Rolo. Então, no fim das contas eu não entendi a do Miolo, mas isso não me atrapalhou de dar uma umidificada nos olhos. Que deus tenha o bom Poodle 🙏