Grisalho
GRISALHO
Comecei a notar uns primeiros fios de cabelo branco fazendo graça na minha cabeça em 1997. Eu tinha dezenove, lembro até o dia. Tava no primeiro ano da faculdade. Já raspava a moleira desde mais ou menos 94, e não muitos anos antes eu era legalmente loiro - loiro gringo, galego, Brian Wilson, com aquele corte cu de pato, um corte em formato de cuia que a molecada simplesmente tinha que aceitar na primeira metade dos anos 80. De franja reta, como se a cuia não fosse suficiente. Pique Paulo Nunes, pré-Paulo Nunes. O Paulo Espiga. Culpa do Dionísio. Não o Deus do vinho, o barbeiro do Piazito.
Pra mim era igualmente um alívio e um reflexo do horror o fato de que minha mãe metia o 2-por-1 pra gente no Piazito, eu e meu irmão na promoção.
Mas esse dia lá em 97 deu pra ver uns três ou quatro fios. Uma dúzia no máximo.
Diz a lenda que cresce essa mesma dúzia pra cada fio branco que você corta.
Esse dia eu cortei todos que vi.
Eu sei, hoje tô grisalho Leslie Nielsen. Sigo raspando religiosamente a cada 20 dias, mas é Leslie há um bom tempo.
Sobre o cabelo em si, nem lembro como era. Desde que comecei a raspar, deixei grande poucas vezes. E cresce capacete, esquisito, sem corte.
Os tais redemoinhos criam um topete involuntário depois de algum tempo, motivo de chacota pra alguns ex-colegas de faculdade, que tiveram acesso a pelo menos um semestre desse desastre do design capilar.
A última vez que deixei crescer um pouco mais foi durante a pandemia. Apostei com meu compadre Filipe que o Philadelphia 76ers chegaria na final da conferência leste de 2020 da NBA. Rolou aquela derrota traumática pro Raptors, com a tal bola do Kawhi que bateu quatro vezes no aro antes de eu começar a chorar.
Seis meses sem cortar o cabelo, mandando fotos semanais da evolução pro vencedor. Um horror.
Cumpri à risca o prometido, é preciso registrar.
Promessa é dívida.
E de dívida eu entendo uma coisa ou outra.
Mas ser grisalho é certamente bem melhor que ser careca.
Não que eu também não seja. Sou um pouco. Tenho a famosa bunda de macaco. Aquela clareirinha ali em cima, que só vejo em foto que não queria ter visto.
Os carecas que me desculpem. A careca até pode fazer de você um cara charmoso.
Se você for o Michael Jordan, o Zidane ou o Common.
Caso contrário, você tá mais pro Marcos Uchôa cobrindo a guerra da Líbia no Jornal Nacional.
Um abraço aos meus amigos carecas. You know I got love.
Claro que a cor do meu cabelo não me deixa charmoso. Mas faz o grande favor de me envelhecer uns bons anos. E cria algumas boas situações, como quando meu sobrinho, por volta dos dois anos, passou a me chamar de vovô no facetime.
E todo mundo reagia com aquele misto de risada e constrangimento, todos cientes da lógica absolutamente perspicaz do menino.
É curioso, esse processo de ir se tornando grisalho. Não é que a cada trinta dias você faz a contabilidade, ‘opa, mais um chumaço aqui’. Uma planilha de chumaços esbranquiçados.
A forma mais fácil de identificar é por foto. Seu truta faz aquele tbt desnecessário de 2019 e a coisa tava menos evoluída ali. 2012? Meninaço.
Minha mãe conta que o cabelo do meu pai ficou branco ‘de um dia pro outro’ em 1988, ano em que meu vô morreu.
Morreu de dor na perna. Como as pessoas velhas costumavam morrer. Ninguém morria de AVC hemorrágico, metástase ou trombose seguida de falência múltipla dos órgãos.
Daí que em 87 meu pai parecia o Magnum, e em 89 ele virou o Kenny Rogers.
Ah, meu vô não era careca. Parecia o Abílio Diniz.
Se o Abílio Diniz trabalhasse numa lotérica do centro da cidade entre 1974 e 85.
Eu não acho que tive UM momento que me deixou de cabelo branco, embora a vida tenha se esforçado pra isso.
Talvez o AVC da minha mãe.
Um punhado de experiências profissionais dignas de nota.
Uma melancolia crônica que parece apontar pruma depressão ali na esquina, sempre à espreita.
Alguns medos.
Memórias ruins.
Ainda tá por aí?
Vem comigo.
Em 2016, tive que fazer a segunda via do meu RG. Coisa chata. Que poderia ser mais chata se não fosse o Poupatempo - que,ao que tudo indica, ainda não foi privatizado.
Não que o Poupatempo seja legal.
Longe disso.
Bom, cheguei lá rapidão. Agradeci e educadamente recusei as ofertas de foto três por quatro e cinco por sete oferecidas com entusiasmo pelos rapazes que ficam ali ao redor do cercado dessa imponente instituição localizada no bairro da Sé.
Pega a senha. Segue a linha azul. Senta no banco. Olha a senha. Confere o painel. Olha a senha de novo, só pra garantir. Chamou. Levanta. Mostra o documento. Segue a linha azul. Outro painel. Outro banco.
Pausa. Qual o sentido de mostrar o documento se eu tô ali justamente solicitando a segunda via do meu.
Deu vontade de cagar. Será que dá pra fazer cocô no Poupatempo?
Deu. Nota 5 de 10. Duas estrelas e meia. Já vi coisa bem pior.
A rodoviária de Diamantina numa quarta-feira de cinzas, por exemplo. Outro dia eu conto essa.
Tô no segundo banco. Senha U 267.
U 228 na telinha de LED.
Facebook tava na moda. Faço um post cretino. Torço por likes.
Caiu o sistema.
Claro que caiu o sistema.
Se você nunca presenciou uma queda do sistema do Poupatempo às 11 da manhã, você não viveu a experiência premium.
Onze e vinte. Voltou o sistema. Outro banco. Só mais vinte senhas.
Caralho.
Quantos likes?
Que bosta. Vou deletar.
Minha vez. Assina aqui e vai pra fila do banco.
Linha verde, senhor.
Legal que a senha segue valendo desde o começo. Mesmo número. Mesmo código.
Pago um valor que claramente não justifica a emissão de um pequeno papel timbrado. Sem o plastiquinho, lógico.
Bom que mantém vivo o espírito da papelaria.
Acho que agora é 100% digital. Ou não é?
Sou finalmente chamado à mesa. Cabine 48. Devia ter umas cem.
Entrego o comprovante do pagamento. Sorrio. Dou bom dia. A moça responde com pouco entusiasmo e sem fazer contato visual, as mãos rápidas divididas entre o teclado e papéis aleatórios.
Busco o crachá dela com os olhos.
Rosângela.
Não acho que ela tem cara de Rosângela.
Noto as unhas customizadas com alegria, longas, várias cores, punhados de glitter e pequenos desenhos geométricos simétricos.
Ela me pergunta alguns dados e, na sequência, me passa um papel. Pede pra eu preencher as lacunas. Vejo que algumas já foram escritas por ela.
Noto que ela, por conta e risco, me classificou como branco.
Ok, de acordo. De fato, houve pouca miscigenação entre meus antepassados.
Espanhol é racista, todo mundo sabe.
A próxima lacuna, devidamente preenchida, me deixou perplexo.
Cor do cabelo: GRISALHO.
Em letra de forma.
Olha que ultraje.
A Rosângela meteu na ficha que eu era grisalho.
SEM PELO MENOS ME PERGUNTAR.
Aquilo me abalou, mas tentei manter a classe.
Ainda meio desconcertado com aquela invasão de privacidade, perguntei
-quando fica pronto o RG
-São dez dias úteis, senhor
Ainda me tirou de senhor.
Levantei, agradeci e voltei a seguir a linha azul, agora no sentido oposto.



Cara, vc pode não concordar q cabelo grisalho pra homem é charme, mas moça do poupa tempo com certeza concorda! 🤣🤣🤣